domingo, 21 de fevereiro de 2016

Não julgue!

Sexta-feira (19) saí para um passeio no shopping Riomar com minha mãe e filho. Bater perna, normal. Renato pediu para ir à piscina de bolas. Deixei. Na hora de ir embora, ele não quis sair. Pedi várias vezes e ele começou a ficar histérico.
Renato tem, entre outras coisas, associado à paralisia cerebral, um comprometimento comportamental chamado TOD - Transtorno Opositor Desafiador. E isso, muitas vezes, torna os passeios bastante complicados. Principalmente quando acaba o efeito do medicamento, que dura cerca de quatro horas no organismo. Vem o tal 'rebote'. O dele é acompanhado de agressividade, sudorese excessiva e um choro 'tomado', daquele tipo que faz a criança ficar roxa.
Ele berrava, esperneando no chão, enquanto as pessoas me olhavam com ar de reprovação. Esses não me incomodam. Já estou acostumada a esses olhares. Quando optei, lá no passado, de não privar Renato da vida por conta das limitações dele, tive que aprender a conviver com os olhares e as críticas. Não é nada fácil ser mãe, trata-se de um diário salto no abismo do acerto e do erro.
Bom, arrastei ele para o banheiro (sim, o verbo é arrastar), para tentar acalma-lo, como sempre tento fazer. Lá, me fechei no box e ele não parava de berrar. Eu falava "calma, filho. Calma". As pessoas começaram a bater na porta, perguntando se estava tudo bem. "Estou tentando acalmar meu filho, por favor, não se meta, ele está no meio de uma crise histérica", falava. Mas vieram duas seguranças e  elas me pediram para acompanhá-las. Quando sai do banheiro havia uma pequena multidão. Nos cercaram, a mim e ao meu filho. Me agrediram verbalmente, botaram dedos na minha cara, me acusando de estar espancando o menino. "Ele está cheio de hematomas", um homem disse puxando o braço de Renato e tirando fotos minhas e dele. "Tire as mãos do meu filho, pare de fotografar ele, caso contrário eu processo você", falei. Então o homem começou a me ofender, dizendo que eu não era mãe, dizendo a Renato que ele ficasse 'tranquilo' porque eu seria presa, e Renato começou a chorar novamente, perguntando "minha mãe vai ser presa?". A essa altura, minha mãe, uma senhora de 85 anos que esperava sentada na entrada do banheiro, veio ver o que era a confusão. E era comigo! Ela tentava explicar que os hematomas do menino são das quedas constantes. "Ele cai muito, faz parte do problema dele", falava. Mas o homem - o mesmo das fotos - estava revoltado.  Afirmava que ia postar fotos nas redes sociais me acusando de espancar o meu filho. Na hora o alertei que o uso indevido de imagem, bem como calúnia e difamação na internet, são crimes. E informei: "também vou fazer fotos suas, assim quando você postar as minhas terei como mandar a polícia atrás de você". Foi aí que ele me ameaçou, disse que iria me bater. Peguei meu celular e comecei a fotografá-lo e quando viu que eu estava tirando fotos dele, desferiu um golpe. Não me acertou, mas ainda senti o 'ventinho'. Tudo isso sob os olhares do meu filho especial de 7 anos e minha mãe, uma idosa de 85. Fui ao SAC do Riomar, onde - orientada por minha amiga advogada - registrei uma ocorrência sobre o assunto. Fiquei lá por quase duas horas tentando me acalmar. Solicitei as imagens das câmeras de segurança, mas fui informada que apenas com ordem judicial.
Durante as duas horas que fiquei chorando no SAC, me sentindo humilhada e impotente,  lembrava da mulher que foi apedrejada até a morte no sul do País porque o 'tribunal de rua' achou que ela era uma suposta sequestradora de crianças. As pessoas hoje se acham detentoras da moral, da justiça e da comunicação - com seus celulares em punho e contas em redes sociais, julgando e condenando quem quer que passe pela frente.
Eu cuido sozinha de Renato. Me orgulho em dizer que se não fosse o meu cuidado desde cedo, possivelmente ele estaria entrevado em cima de uma cama. São horas e horas de fisioterapia, equoterapia, hidroterapia, fono, psicóloga, terapia ocupacional, psicopedagoga, neuropediatra. O melhor acompanhamento que eu posso dar.
Fora lazer, alimentação, vestuário. Dou conta de tudo e, graças a Deus, meus pais me ajudam na logística. Tenho cinco trabalhos para poder sustentar tudo isso. Mas crio sozinha, com os ônus e os bônus. O pai não está nem aí pra ele. Paga pensão,  mas não sabe nem o que o menino tem, tampouco se interessa em saber. E até essa culpa me apontam: "o pai não quer ver o filho? o que foi que você fez a ele?".
Estou contando isso aqui como um alerta, até para mim mesma. Não gosto de me expor e, muito menos, expor meu filho. Mas eu precisava fazer isso para dar esse toque mágico: não julgar. Não julgue. Não JULGUE. NÃO julgue. NÃO JULGUE!!!
Não sei o dano que isso vai deixar em Renato. Na verdade ainda nem sei que dano vai deixar em mim. O que eu quero hoje é dormir tranquila, abraçada com meu filho, para que ele se sinta como sempre se sente comigo: protegido. Mas acho que hoje, e durante um bom tempo, ele é que vai fazer isso por mim. Vou me reconstruir no amor dele. Fé em Deus e bola pra frente.

Um comentário:

  1. Com certeza você é uma excelente mãe, meus parabéns pela coragem e lutas diárias! Tenho certeza que seu filho tem a melhor mãe que o mundo poderia lhe dar.

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