sábado, 18 de julho de 2015

De volta à luz


Fundo do poço.  Essa expressão é muito, muito interessante. Ela é a metáfora do "estou muito mal", "estou na merda" e afins. Estar no fundo do poço eu entendia como ter chegado tão fundo, mas tão fundo, que não há como ficar pior.
Mas há.
Há porque hoje eu sei que essa expressão "no fundo do poço" remete ao fato de você,  ao estar lá,  olha para todos os lados e não vê saída. Tudo é parede. Não há escapatória.
Sabe como foi que eu tive este entendimento?  Chegando lá,  no tal fundo do poço. Lá, eu olhava ao redor e só via escuridão.  Isso aconteceu por conta de um relacionamento findo (e agora finado, por quê não dizer), totalmente permeado por mentiras e traição, o que me provocou uma dor profunda por ter sido tão enganada. Descobrir isso me levou ao fundo do poço. E eu lutei para sair. Tentava escalar as paredes lisas do poço em que me encontrava e, simplesmente, não conseguia sair dele. Usei para as minhas escaladas várias formas de terapia: sistêmica,  religiosa,  meditação budista e análise freudiana. Cada uma me ajudou um pouco. Mesmo assim eu não conseguia escalar o poço. Parti para a química, numa tentativa de aliviar meus pensamentos e relaxar o meu corpo. 


Nada. Meus amigos e minha família tentavam me puxar,  mas eu não conseguia sair daquele estado em que eu me encontrava. E as vozes iam ficando cada vez mais inaudíveis, e eu me encolhia mais e mais. Eu me perdi de mim mesma. Às vezes levantava (dias bons), mas logo depois abaixava de novo (dias ruins). Acho que cheguei a segurar a maçaneta da porta que me levaria à depressão. Mas não abri.
Foi pelas mãos do meu filho que consegui encontrar o caminho de volta.  Renato, meu anjo pequeno e barulhento, que está de férias e queria muito sair para passear. Ele, que de noite orava para Papai do Céu pedindo pra Ele levar minha tristeza embora, me pediu para passear. E eu reuni minhas forças e perguntei "para onde você quer ir, filhote?". "Quero ir à praia, mamãe". E fomos. Meio da tarde, quando todas as cores estão explodindo no céu. Me sentia fraca, meu corpo tremia. Mas quando cheguei na orla com Renato e desci do carro para tirá-lo da cadeirinha, senti aquela brisa do mar tocando meu rosto e eu olhei para o sol, que estava se preparando para ir embora, por trás dos prédios da av. Boa Viagem. Fechei os olhos e senti aquele vento passear pelo meu corpo. E lembrei das palavras  de João,  que me guiou nas horas de meditação: "o pensamento veio... sinta ele... e deixa ele ir... assim como o ar entra nos seus pulmões,  oxigena seu corpo inteiro, e sai...".
Renato me pegou pela mão e me guiou até a areia. Tirei a sandália e senti a terra nos meus pés. 

Caminhamos até a beira da água e deixamos as ondas acertarem nossas pernas. Olhei para baixo e vi as ondas indo e vindo, batendo nas minhas pernas... e lembrei de Vento no Litoral, daquele trecho em que Renato Russo diz "eu deixo a onda me acertar e o vento vai levando tudo embora". As lágrimas vieram. Renato segurou minha mão e disse "vai ficar tudo bem mamãe". E eu olhei para ele e para a luz do sol de novo, que iluminava meu filho em tons de laranja. E entendi, enfim, como é que se sai do fundo do poço. É olhando para cima. Para a luz. Para Deus. Para o que temos de bom e lindo nesta vida. Isso faz a gente ficar leve e flutuar para fora do poço.
Ficamos um bom tempo na praia. Renato brincando no parque do terceiro jardim e eu voltando a enxergar, maravilhada, todas as lindezas do mundo.
A começar por ele,  meu pequeno anjo. Meu presente de Deus, tão forte, que suportou tudo ao meu lado. Dormindo comigo, ao longo de três difíceis meses,  tocava meu rosto durante a noite. Se estivesse molhado, ele se aninhava à mim, num gesto de proteção e carinho. Seis anos. Essa é a idade dele. Me fez lembrar uma poesia que escrevi quando ele nasceu: "Renato, Renatus, renascido. Por meio de mim ele veio à vida, mas quem renasceu fui eu". Pura verdade. E, por ele, renasço dia a dia. Grande bênção de Deus para mim. Aleluia!!
No mais quero dizer que sempre existe a possibilidade de um dia melhor. E que não importa o tamanho da dor: uma hora ela fica suportável e depois vai virar lembrança. Ou seja: passa. "Tudo passa, tudo sempre passará", diz Lulu. E está certo.
Deus colocou muitos anjos no meu caminho nesse processo de reencontro comigo mesma e eu não posso deixar de registrar minha gratidão àqueles que - de alguma maneira - me ajudaram a olhar de novo para a luz. Às vezes, um simples "tá tudo bem com você" faz milagres na vida de uma pessoa e pode garantir um dia bom. A vocês,  meu obrigada mais sincero.
**RENATO**
*Flora*, Vilela, *Dianely*, Regina, Graciane, Natália, Claudinha, *Keila*, Vera, Nena, Simone, Thiago, Scharlene, Breno, Clarissa, Marcos Miguel, André, Hérica, Beta, Linda, Kikinho, Antônio, *Erik*.
Tia Naná, tia Vera, *Karla*, Karlinha,  Rebeca, Aninha, Dani, Alvinho, Roberto Junior.
*Mamãe*, papai, Anna Elizabeth.
*Junia*, Vando.
Scheila, Dr. Domingos, João Valle, pr. Tercio, Dom Ximenes.

E a todas as pessoas dos meus trabalhos, pela compreensão e paciência.
Muito obrigada. Já estou de volta à luz. Graças a Deus.

Um comentário:

  1. Falei pra VC que tinha ouro nas mãos( Renato). Nunca duvidei que sairia dessa fase. É isso, fase! Necessária para nossa evolução moral e espiritual. Parabéns! Deus te abençoe.

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