segunda-feira, 29 de junho de 2015

O perdão



Outro dia estava na minha sessão semanal de terapia com Pastor Tercio e falava com ele sobre a minha grande angústia por não estar conseguindo perdoar uma pessoa que me machucou muito, muito mesmo. Eu explicava para ele, aos prantos, que estava sentindo coisas que jamais havia sentido em toda a minha vida. "Pastor, parece que tem um elefante sentado no meu peito, me impedindo de respirar", falei. 
Ele só me olhava. O choro não acalmava, e ele continuava me olhando e me dando lencinhos de papel. E eu falava, falava, e questionava ele sobre os motivos que levam as pessoas a agirem com tanta sordidez,  desprezando o dano que podem provocar nos outros.  
"Filha... você está fazendo as perguntas erradas. Você não deve se importar com os motivos das pessoas, pois elas são o que são e dão o que tem pra dar. E você deve, em primeiro lugar, pensar em se perdoar. Porque ninguém te enganou. Foi você que se deixou enganar", disse ele. 
Parei de soluçar e encarei aqueles olhos azuis, que me fitavam cheios de ternura. Aquele foi um grande momento de revelação para mim. À medida que as palavras iam sendo digeridas e assimiladas,  o elefante foi se levantando do meu peito. O ar voltou a entrar, oxigenar, e sair...
Pronto. É isso. Entendi. Entendi e foi tão libertador que vou tentar explicar para vocês. Não devemos nos culpar pelo que sentimos, pelo que vivemos,  pelo que nos permitimos. Não devemos sentir culpa pelo que demos, mesmo que a recíproca não tenha sido à altura. O perdão mais importante é aquele que concedemos a nós mesmos. Por meio dele, nos libertamos das prisões da mágoa,  do rancor e do ressentimento. 
Tem uma música do Natiruts que fala assim: "leve com você só o que foi bom, ódio e rancor não dão em nada (...) mas não tem nada, não. Só guardo o que foi bom no meu coração,  o amor é como o sol: sabe como renascer". E sabe mesmo. O amor nos faz renascer. Não o amor de alguém ou por alguém.  Mas o amor por nós mesmos. E quem ama, perdoa. Eu me amo. Logo, me perdôo. E, por me perdoar, consigo perdoar as outras pessoas. Reação em cadeia do bem, faz bem pra alma, pro corpo e pra o coração.   
Exercitemos, pois, o perdão. O auto-perdão. 
Eu me perdôo por ter feito algumas escolhas erradas.
Eu me perdôo por ter batido o carro duas vezes na mesma garagem.
Eu me perdôo por ter me deixado engordar tanto e precisar reduzir o estômago para conseguir ver os meus pés. 
Eu me perdôo por não ter passado no concurso da Alepe. 
Eu me perdôo por ter medo de tomar decisões erradas com meu filho. 
Eu me perdôo, enfim. 
Errar é humano. Eu cometo erros, pois é exatamente isso que eu sou: humana. Nem Mulher Maravilha, máquina.  Gente, de carne e osso - mais carne do que osso, by the way
E eu me perdôo por isso também.
Culpe-se menos. Ame-se mais. Um dos segredos da felicidade.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Os sinais

Todo mundo já deve ter ouvido falar que quando a esmola é grande demais, o santo desconfia. Em geral, quando é assim, o IVDM, ou "índice de vai dar merda" é grande.

E é pra desconfiar mesmo. Carro muito barato? Fria. Repasse extraordinário de um apartamento? Investigue. E se você conhecer um cara perfeito, sensível,  companheiro, carinhoso,  dedicado e otras cositas más... Sinceramente? O potencial desse príncipe ser um sapo é gigantesco. IVDM imenso!!!
Sabe por que? Porque príncipe encantado simplesmente não existe. Quando Chico Buarque diz na sua Ciranda da Bailarina  "Procurando bem todo mundo tem pereba, marca de bexiga ou vacina. E tem piriri, tem lombriga, tem ameba... só a bailarina que não tem", acho que retrata bem isso de que não existe perfeição em ninguém. Porque, na boa? Até a bailarina peida!!
E a gente sabe disso. Num é não?
Pastor Tercio, meu terapeuta, tem me ensinado a reconhecer os sinais e dar ouvidos a eles. Sim, recebemos sinais!!  Alertas de que há algo errado naquela determinada circunstância , mas estamos tão envolvidos no fantástico-mundo-do-relacionamento-perfeito que não damos atenção a eles. 
Esse é o segundo grande erro (o primeiro é acreditar em príncipe encantado): acreditar que existe relacionamento perfeito. Não, não existe. Nem o relacionamento que mantemos conosco é perfeito. Erramos e tentamos mudar (até mesmo porque não dá pra terminar o relacionamento com a gente mesmo, né?). 
E seguimos na relação, achando que tá tudo lindo e perfeito, cheio de harmonia e reciprocidade, até que, de repente, tropeçamos em uma das pedras que começaram a desmoronar do castelo do príncipe. E a gente ainda insiste. Não vê que isso é um alerta! Insistimos até que nos caia uma pedra beeeeem maior na cabeça, que se desprendeu da torre mais alta do castelo. Aí o dano aumenta e a recuperação é mais dolorosa. Porque quando é  só uma topada, talvez dê pra remediar. Já quando é uma pedra que cai na cabeça... 
Mas cicatrizado o corte, parta para entender o "pra que". Se analise, se conheça.  Se respeite. Não faça escolhas baseadas na carência, no medo da solidão, ou na ideia equivocada de que a felicidade está em outra pessoa que não seja você mesmo. 
Enfim, não devemos ignorar os alertas. Eles são avisos que recebemos de Deus - ou, pra quem prefere, do universo - de que há algo errado. E, creia: se está tocando seu alarme interior - seja um estalinho ou uma sirene -, há algo errado. Não ignore os sinais. Respeite as suas sensações e impressões. O segredo é o autoconhecimento. Com o autoconhecimento vai dar pra sacar se aquele príncipe que você beija não vai se transformar num indigesto sapo cururu, com rima e tudo. E é essa a minha busca: me conhecer, cada vez mais. Experimente também.  É bacana e traz bons resultados.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Sobre escolhas e tempo


Dizem que não se chega ao topo da escada se não subir o primeiro degrau. Dizem que decidir é meio caminho andado. Dizem que amar é uma questão de escolha. Rá!!! Tudo clichê. Mas... É verdade. Por mais que eu deteste frases feitas, sou obrigada a concordar com tudo isso aí.
Amor, por exemplo. Amor é algo cativado e cultivado. O amor é uma escolha. Você escolhe se deixar envolver, escolhe se entregar, escolhe amar alguém. Logo, 'desamar' deve ser igual. Eu escolho não amar mais. Escolho esquecer. Escolho não mais te escolher.
Aí me vem à mente os versos do grande Chico: "como, se nos amamos feito dois pagãos,  meus seios inda estão em tuas mãos, me explica com que cara eu vou sair?". E é isso mesmo. Amar pode até ser uma escolha. Mas deixar de amar é uma questão de escolher dar tempo ao tempo e deixá-lo agir.
Ele, o senhor da razão. O tempo. Aquele capaz de nos mostrar que qualquer coisa - boa ou ruim - pode ser superada.
Mas é, de fato, uma escolha.  Sou obrigada a concordar, novamente, com o clichê. Se não dá certo, temos que escolher deixar ir, escolher que o tempo cumpra o seu papel. É escolher não 'desamar', mas simplesmente que não vai mais alimentar o sentimento, deixando,  assim, que ele se vá. Ao sabor do tempo e do vento. Como nos ensina a meditação: deixe o pensamento vir, sinta, e deixe ir. Como a ar que entra nos pulmões, oxigena todo o corpo, e sai.
Importante também deixar ir sem se perguntar "por que". Pergunte "pra que", como eu disse no post anterior. Afinal, 'por que' não tem uma resposta satisfatória. 'Pra que', tem. Tudo tem um propósito.  Amar e desamar. Mas a resposta do "pra que" só virá depois que o tempo passar.
Aí vai ser a hora da filosofia pop rock de Lulu Santos: "Não vou dizer que foi ruim,  também não foi tão bom assim... não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais". E assim, gente,  caminha a humanidade.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A pergunta certa

A vida passa a ser mais suave quando entendemos uma grande verdade: coisas ruins acontecem. E sim, elas acontecem com pessoas boas. E pensar sobre isso pode ser enlouquecedor. Os questionamentos, afinal, são inevitáveis.  Por que? Por que eu?  Por que comigo? E essas perguntas simplesmente não têm resposta. Aconteceu porque coisas ruins acontecem. E acontecem com pessoas boas. Ponto, na outra linha. 

Cabe aí a reflexão não do por quê, mas sim do pra quê. Nada - repito - NADA acontece por acaso. E se aconteceu, não tem remédio, busque pelo menos o aprendizado. Assim, a dor sofrida não será vã.   
Eu olho à minha volta e vejo tanto sofrimento.  Gente bacana que morre de graça,  pessoas do bem sofrendo com doenças terríveis,  gente que ama e se doa e é massacrantemente enganada.  
Mas eu também vejo, quando olho à minha volta, coisas lindas. Generosidade. Amor. Amizade. Desprendimento.
Toda semana vou à AACD com meu filho e lá vejo grandes atos de amor. Seja dos voluntários, que doam seu tempo para ajudar,  seja daquelas famílias que estão lá para proporcionar mais conforto à vida dos seus entes. E eu digo: não é fácil. 
Muitas vezes eu me perguntei por que eu tinha um filho deficiente físico. Hoje eu vejo que Renato cuida mais de mim do que eu dele, pois ele me inunda de uma coisa cuja falta  é a grande chaga da humanidade: amor. Então a pergunta não é mesmo por que. Essa não tem resposta satisfatória. Mas pra quê tem. Pra que eu entenda o verdadeiro significado da palavra "amor", incondicionalmente falando. 
Minha sugestão para todos diante da vida e da quantidade de porradas que dela levei, é que temos que tirar lições de tudo que vivemos. Cada segundo da nossa existência é um aprendizado maravilhoso. Mas não,  não é fácil.  Não é fácil justamente por conta do tal "por que". Eu mesma preciso parar de me perguntar isso...

Essa semana fui assistir Divertida Mente com Renato.  E o desenho - que de infantil não tem nada - me deixou como lição que a felicidade está no equilíbrio entre a alegria e a tristeza. Chorei feito uma tabacuda no cinema. Mas entendi o recado. A dor ensina. A tristeza nos faz valorizar a vida. A lágrima precede o sorriso. Por que? Porque sim. Pra quê?  Pra nos ensinar a viver, ora essa!
Vivamos, pois, nessa grande corda-bamba que é a vida. Mas não se preocupe! Se você cair, dá pra levantar. Avariado, com a lataria meio amassada... mas de pé. E uma coisa é certa: você poderá até cair de novo,  mas dificilmente será pelo mesmo motivo.