quarta-feira, 14 de maio de 2014

O sonho de Ícaro

Ícaro, com certeza, morou um dia no Recife. Falo daquele rapaz da mitologia grega, que para fugir do labirinto do minotauro muniu-se de penas e cera, produziu asas e voou. O desfecho da história não é bacana, claro. Como se sabe o rapaz foi perto demais do sol, encantado com o astro rei, e o calor derreteu a cera que mantinha suas asas, e consequentemente o mancebo espatifou-se no Mar Mediterrâneo. Mas por que eu acho que Ícaro um dia morou no Recife? Porque apenas uma pessoa que tenha morado aqui teria a ideia de ter asas. 
Recife tornou-se uma cidade impraticável para aqueles que, como eu, precisam usar as ruas para se locomover. Usar em vários sentidos. Explico.
Se estou de carro, fico presa no trânsito. Ontem mesmo levei 1h20 da Boa Vista para a Torre. Depois, da Torre para a Várzea, levei mais 50 minutos. Da Várzea para a Boa Vista, outros 40 minutos. Não, não. Este último trajeto não foi cumprido na hora do rush. Passava das 21h quando saí da zona oeste para o centro. Em quilômetros? 17. Em tempo? Rá!!! Conta aí quanto eu gastei! E são muitos os motivos para o trânsito intenso. Muito carro na rua, porque as pessoas não usam o transporte público. E obras. Obras, obras e mais obras. E, curiosamente, são obras para melhorar a mobilidade urbana. Construção disso e daquilo, "operação verão" em pleno inverno. São tantos buracos nas ruas que tenho a impressão que as vias são cobertas com massa de modelar... Será que, nesse caso, deveríamos chamar as obras de "obradas"??
Andar a pé também não é uma boa opção. Nem me refiro à falta de segurança, mas ao fato de ter que praticar salto em distância para caminhar pelas calçadas da cidade. E, se você opta por prestar atenção ao chão para não cair e/ou tropeçar nos buracos, corre o risco de ficar emaranhado nos galhos de árvores que tomam conta das ruas. Vejam bem: Árvores precisam de poda! É feito cabelo, sabe? Quando você não corta, já viu... E, depois de desviar desses dois primeiros obstáculos, cabe ao intrépido pedestre disputar espaço com bicicletas, fiteiros, ambulantes, lixo, fios... Já desisti de usar salto alto, elegância não combina com andar a pé no Recife. Me pergunto, então, como se viram os idosos e portadores de necessidades especiais. Segunda-feira, por exemplo, meu pai, idoso (que ele não me leia), estabacou-se numa calçada na rua Gervásio Pires. Graças a Deus nada de mais grave aconteceu, mas quantas e quantas pessoas caem por conta da falta de manutenção das calçadas e vias? E não venha com esse papo de que calçada é propriedade particular. Mesmo sendo, cabe à prefeitura fiscalizar se as mesmas estão em bom estado de conservação, garantindo à população aquele tal direito constitucional, o de "ir e vir".
Bicicleta é outro processo. Porque o que acontece é que o motorista não respeita o ciclista na rua, o ciclista não respeita o pedestre na calçada, e nesse gigantesco universo da falta de respeito, todos perdem. Eu e você, você e eu - juntinhos, como diria Tim Maia. Acho uma onda esse lance de estimular o ciclismo. De que adianta, se quando ele é mais necessário - dias úteis - não existe uma ciclovia? Aliás... Ciclovia não. Conevia. Que ideia mais surreal essa de criar uma ciclovia com cones de trânsito, aos domingos e feriados. Eu, por exemplo, gostaria de utilizar minha bike para ir ao trabalho, ao supermercado... Coisas que faço em dias de semana. Ah... Deixa de ser chata, é lazer. É? Então não diga que é para as pessoas usarem bicicletas para ir trabalhar. Não se você não dá condições para que isso aconteça, não é verdade?
Transporte público... Putz. Esse eu não vou nem comentar... Ônibus e metrô, imobilidade urbana da melhor qualidade.
Mas quem sou eu, né? Sou apenas uma pessoa que critica sem oferecer soluções. Mas não sou eu que tem que oferecer soluções, esse definitivamente não é o meu papel. Sou uma simples cidadã que tenta se locomover na sua cidade sem se aborrecer com o tempo que gasta com isso - seja a pé, de carro, de bike, de ônibus, de metrô. Mas se eu pudesse oferecer soluções, diria o seguinte: invistam seriamente o dinheiro público. Parem de maquiar os problemas e promovam ações efetivas para a melhoria da mobilidade urbana. Quais? Não sei. Mas eu pago pessoas para oferecer soluções. Mais da metade do que eu ganho com o meu trabalho vai para impostos. Logo, eu pago gestores, técnicos, et cetera. E quero retorno disso. Tá na hora, ou não?

Enquanto isso vou cantando por aqui a trilha sonora da mobilidade urbana do Recife, inspirada em Ícaro, interpretada por Biafra: "voar, voar, subir, subir...". Afinal, só assim mesmo para ir de um lugar para o outro no Recife. Voando.


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