segunda-feira, 30 de abril de 2012

Vivendo e evoluindo

Olá, meus amigos! Olha eu aqui de novo! Já faz muito tempo desde a minha última postagem, não é? E, logicamente, muita coisa aconteceu na minha vida nesse intervalo. Não foi nada demais não... só estava sem vontade de escrever. Mas agora a vontade voltou e tenho muita coisa para contar. Sobre a cirurgia, as reviravoltas da vida, os recomeços, as redescobertas. Mas temos tempo para conversar sobre tudo isso. Afinal, pra citar aquela frase que adoro de Renato Russo, "o mundo começa agora, apenas começamos...".

E vou começar com uma coisa que aconteceu comigo um dia desses quando me peguei tendo um comportamento preconceituoso do qual provavelmente fui alvo várias vezes. Explico.

Comprei uma passagem Recife – Petrolina com antecedência e fiz a reserva de assento – no corredor – no ato da compra via internet, já para evitar os habituais aborrecimentos que temos nesses benditos voos promocionais. Até aí, tudo bem.

Cheguei ao aeroporto no horário certo - 21h20, 1h antes do voo -, fiz o check-in e conferi o meu lugar: 5C – quinta fileira, corredor esquerdo para quem está olhando para a frente do avião. Ótimo.

Já na sala de embarque tive a informação vinda da simpática voz do além sobre o atraso não apenas do meu avião, mas de vários outros. Resultado: superlotação na sala de embarque. Tudo bem. Botei meu fone de ouvido e relaxei... Já passava das 23h quando a galera da Avianca começou a se posicionar no portão.

Aqui cabe um aparte. Impressionante como as pessoas ficam ouriçadas para embarcar. Mesmo um avião tendo as poltronas marcadas, a galera levanta e forma uma imensa fila. Fila diante de uma porta de vidro ainda fechada e dois funcionários da companhia arrumando o esquema de embarque. Ai, ai, ai...

Bom, fui a última a levantar e fiz isso quando havia apenas uma pessoa mostrando o cartão à funcionária. Mas cada um é cada um (profundo isso, não?).

No avião, mais fila. Agora para guardar a troçada nos compartimentos superiores. Quando finalmente entrei na aeronave passei a vista para encontrar meu lugar. Opa! Não vi. Olhando rapidamente percebi todas as fileiras da frente ocupadas. Fui me aproximando e reparei que havia duas pessoas na fileira cinco e uma delas era um homem gordo. Muito gordo. Ele estava sentado na minha poltrona, a C, e ocupava a metade da poltrona do meio, a B.

foto meramente ilustrativa
Parei e fiquei olhando para ele, esperando que ele percebesse que estava no meu lugar. Depois de alguns instantes ele se deu conta que eu estava plantada no corredor. Ele – mó simpático – sorriu para mim e perguntou como eu estava. Respondi que estava bem – bem e querendo sentar – e apontei para o meu assento, assento no qual ele estava sentado. Ele ergueu a mão a me cumprimentou, apertando o meu dedo em riste, o que me pareceu uma cena um tanto quanto bizarra. Aí ele perguntou:  “você quer mesmo sentar aqui?”.  “Bom, é o meu lugar”, respondi. “É melhor você sentar no meio”, disse o sorridente gordinho. Olhei para o filete de poltrona que restava ao lado dele e para a pessoa que estava na janela. Eles estavam viajando juntos. Eu continuava de pé, no corredor, e atrás de mim outras duas pessoas aguardavam para passar para os seus lugares. Percebi que as pessoas próximas estavam olhando para a cena. Creio que já esperavam algo assim...

“Olha, senhor, eu gostaria de sentar para que as pessoas passem, o embarque seja finalizado e o voo comece, sabe?”, respondi. Ele, rindo ainda mais, perguntou de novo se eu queria MESMO que ele fosse na poltrona do meio. Fiz uma cara de poucos amigos, respirei fundo e quando ia responder o amigo dele disse que trocaria de lugar comigo. Ok. O gorducho levantou, o amigo levantou e nos reposicionamos.

arroxa que dá!
Já sentada na janela fiquei remoendo a história. Olhava pra ele e mentalmente xingava, me perguntando se ele não tinha noção de que incomodava as pessoas. Ele era tão gordo que o cinto de segurança não coube, só fechou com um extensor. A mesa não abria por conta da barriga imensa. Ele estava com metade do corpo no corredor e o amigo dele estava espremido na poltrona do meio.

Olhei para mim, sentada confortavelmente na poltrona da janela e me senti superior. Olhando para ele cheguei à conclusão de que eu era melhor que ele, pois eu cabia numa porra de uma cadeira de avião. Kiki, a fodona ex-balofa.

Tive que desligar o som na decolagem e não tive como não escutar a animada conversa entre o gorducho e o espremido. Ambos médicos. E o gorducho era, de fato, uma figura muito simpática. Escutando o papo dos dois me dei conta de que ele é casado, tem filhos, viaja muito a trabalho e leva a vida de uma maneira muito leve, mesmo sendo uma pessoa fisicamente tão pesada. Aí eu caí em mim. Eu estava sendo uma idiota preconceituosa, julgando o cara sem conhecer, exatamente como faziam comigo no passado. Achei um monte de coisas dele pelo simples fato de ser gordo.

Lembro de uma época na qual eu precisava viajar para Brasília a trabalho duas vezes por mês. E eu já gostava de sentar no corredor naquele tempo, só que pesava uns 130 kg. Grande, muito grande. Recife – Petrolina dura uma hora. Recife – Brasília pouco mais de três. E eu apago em avião. Então imagina a cena: uma gorda, sentada no corredor, dormindo, roncando e impedindo que as pessoas que estavam sentadas ao meu lado fossem ao banheiro ou simplesmente pegassem algo no bagageiro não por uma horinha, mas por três. É... certamente elas pensavam muitas coisas de mim. Coisas, sem dúvida, nada agradáveis... Exatamente como eu estava fazendo com o homem gordinho.

Quando me dei conta disso me senti mal, muito mal. Mal por ter sido antipática com uma pessoa educada e simpática. Mal por ter sido intolerante com uma pessoa por ela ser diferente do padrão. Mal por ter me sentindo superior a ele porque ele era gordo e eu não. Mas, principalmente, mal por ter sido preconceituosa. Extremamente preconceituosa.

Como são as coisas, né? Preconceito, por si só, já é uma grande merda. E numa situação dessas, é ainda pior. Afinal eu já estive do outro lado, já fui gorda. Já fui apontada na rua e já recebi olhares reprovadores e "sábios" conselhos de ilustres desconhecidos. E tudo isso me fazia muito mal, mesmo que eu não demonstrasse. Pra o mundo eu era forte e bem resolvida. Por dentro estava massacrada e para aliviar minha dor comia mais e mais. Conheço a história indo e voltando. Então como eu – justamente eu – faço isso com alguém?

Não pedi desculpas ao gordinho. Me arrependo disso. Se eu pudesse voltar no tempo eu teria retribuído o sorriso. Eu teria brincado com ele sobre a mudança de lugar. Eu teria sido gente, e não a babaca que eu fui. Uma vez, já depois de reduzida, eu saí, conheci um cara e fiquei com ele. Aí no local onde estávamos passou uma gordinha. Percebi que ele olhou e eu fiz algum comentário sobre como é difícil perder peso e sobre redução de estômago. Ele, magro e malhador, respondeu: “que nada! Pra emagrecer é só fechar a boca e ir pra academia”. “Eu sou reduzida”, falei. Ele fez aquela cara de bunda. 

Pois é. Só quem já passou pela obesidade e todos as coisas que a acompanham sabe que emagrecer não é tão fácil assim. Emagrecer não é fácil e obesidade é uma doença. Doença sim e deve ser tratada como tal. Dieta e exercícios? Claro! Acompanhada de terapia e, se for preciso, remédios. Não deu certo? Opera. Mas o principal: está bem com o seu corpo? Então ligue o bom e velho ‘foda-se’ e seja feliz!

especiais nos ônibus...
Mas tudo bem. Não vou me massacrar por isso, por não ter sido legal. Vou tirar do ruim mais uma lição, a lição da tolerância. Afinal, na realidade, se eu estava incomodada com o cidadão, imagina ele, todo espremido numa cadeira apertada, constrangido – e ainda assim sorridente – pelo cinto de segurança que não atacava nele? O que tem que acontecer, na verdade, é que o mundo tem que se adaptar às formas avantajadas. Outro dia, num ônibus (Expresso Paul McCartney, by the way), vi que há cadeiras reservadas para pessoas com mobilidade reduzida – idosos, deficientes, gestantes e... obesos. Achei o máximo!  Eu sabia da lei, mas ainda não tinha visto, por não andar de ônibus. Ah, se no meu tempo de estudante fosse assim... Sofri muito quando dependia de ônibus. Já cheguei, inclusive, a ficar presa na roleta. Foi constrangedor.

... e nos metrôs
Então fica aqui o meu recado para as empresas de ônibus, avião, cinemas, teatros, restaurantes, shoppings... adaptem-se às pessoas gordas! Criem assentos especiais! Já há jurisprudência sobre esse tipo de coisa. Constrangimento, preconceito. É isso. Evolui mais um pouco com essa experiência. E que a minha experiência também sirva de lição. Tudo que a gente não precisa é viver num mundo ainda mais preconceituoso, não é verdade?

E fica também o meu recado para mim mesma. Afinal, por mais que eu reconheça que tive um comportamento terrível, não posso negar que tremi nas bases quando vi na fila de embarque do voo de volta um rapaz deveras gordinho. Só de pensar que ele poderia ter marcado a poltrona do lado da minha fiquei tensa - afinal viajar no aperto não é nada confortável. Mas de uma coisa tenho certeza: dessa vez eu iria contornar a situação com muito mais bom humor!