domingo, 4 de março de 2012

Kiki x Excelsior: 2° round

espelho, espelho meu...

Ficar bonita realmente não é fácil. Especialmente depois de pesar 135 kg e cair para 73. Claro que estou falando aqui de beleza física, estética, que é aquela que vemos quando olhamos no espelho. E, não é mistério para ninguém que me lê ou me conhece, o quão sharpei eu fiquei depois de perder mais de 60 kg. Linda como sempre, mas flácida até dar uma dor. 
Eu, que de passiva não tenho nada, corri atrás do prejuízo. 
Comecei as reparações no ano passado. No dia 14 de outubro fiz barriga e peito. Ficou para depois braços, costas e elas, as malditas pernas, motivo de tanto desconforto para mim. Tanto que resolvi fazê-las antes de fazer as costas, que seria mais inteligente, pois repararia um quadrante primeiro – o superior – e depois finalizaria arrumando coxas e, talvez, bunda. 
Mas, como eu disse antes, as pernas sempre me incomodaram mais do que qualquer outra coisa. Não era agradável vê-las caindo sobre os meus joelhos e isso abalava imensamente a minha autoconfiança. Conversei com dr. Pita e ele topou fazer pernas e braços. Vamos em frente. 
Peguei a requisição da cirurgia com ele e dei entrada na Excelsior, o meu adorável plano de saúde. Dei entrada já ciente que eles negariam os procedimentos, pois os mesmos não estão no rol de coberturas. Mas... eu conheço bem os meus direitos. E sou teimosa. Ou persistente. Ou qualquer coisa que o valha. 
Conforme eu previa, eles negaram. Rafaella, minha advogada, já tinha sido alertada por mim e já estava trabalhando na peça. A negativa dessa vez não contou sequer com a perícia médica, eles recusaram sem nem me avaliar. 
Um parêntese para fazer uma observação sobre isso. Não posso nem condenar a atitude do plano, sabe? Trata-se do famoso “se colar, colou”. Eles negam e a maioria das pessoas – a maioria mesmo – simplesmente deixa pra lá. Ou por achar que não tem direito, ou por achar que não tem chance de ganhar, ou por receio de demorar demais. Não importa o motivo. Desistir sem tentar é o que 99% dos consumidores faz. Mesmo hoje, com tanta informação circulando, eu sou um caso raro de consumidora. E olha: já estou na segunda ação contra a Excelsior. No final do ano possivelmente entrarei com outra, lembrem-se que ainda tenho que corrigir as costas...
dura lex
Pois bem... sorte minha – azar da Excelsior – que eu me encaixo no grupo de 1% que briga. A tutela antecipada – que garantia a realização da cirurgia – saiu no dia 17 de fevereiro. Sexta-feira de carnaval. A cirurgia estava marcada para o dia 29 de fevereiro, uma quarta-feira. Fiquei estressada, pois Recife e Olinda param nessa época, mas Rafaella disse que tava tudo dominado. Acabou o carnaval e o ano começou na quinta-feira, 23 de fevereiro, primeiro dia útil depois dos festejos de Momo. A quinta passou, a sexta também. E nada do plano ser notificado da decisão judicial. Segunda, 27 de fevereiro. Nada de oficial de justiça. Eu já estava beirando a histeria. Mas entreguei nas mãos de Deus, e não há nada melhor do que descansar Nele. Na terça-feira, um dia antes da data marcada para a cirurgia, a oficial de justiça notificou o plano. E a tutela tem ação imediata, ou seja: cirurgia garantida. 
Mas foi um sofrimento. Para mim e para quem estava perto. Eu estressei todo mundo no meu entorno. Mas, graças a Deus, tudo certo. Nos 45 do segundo tempo, mas deu. Deus não falha: fato. 
Um estresse de última hora, já no hospital. A senha de autorização foi encaminhada no nome de outra pessoa. Meu código do plano termina com 5 e o da pessoa com 1. Isso atrasou o meu internamento e, consequentemente, perdi a primeira parte do procedimento de sedação, o dormonid. O anestesista, um rapaz deveras fofo chamado Fábio, disse que não ia adiantar me dar nada a essa altura do campeonato, pois eu já ia ser removida para o bloco. Tá bom, então. Pedi a ele que, pelo menos, aplicasse uma anestesia que me desse um barato mó legal. 
Botei a roupinha do bloco e minha acompanhante e personal stylist Rachel tratou logo de dar um toque fashion nela. Nada de nós: um lacinho fofinho para compor o visual, junto com a touca e os sapatinhos. Maqueiro a postos, lá vai Kiki para o bloco cirúrgico. 
Bloco cirúrgico é aquela coisa, né? Você percorre o hospital deitada numa maca, vestida de alface, enquanto as pessoas que esbarram com você no caminho te olham com aquela cara de “boa sorte”, mesmo não tendo a menor ideia do que você vai fazer. Mas é isso mesmo. Solidariedade humana é massa. Afinal, todo procedimento cirúrgico, por mais simples que seja, é um risco de, no mínimo, 50% de chance de dar certo e 50% de chance de dar errado. Cest la vie...
Cheguei no sala de cirurgia e dr. Pita e o gatinho do dr. Fábio já me esperavam. Dr. Fábio me espetou e começou a injetar coisas em mim. “Devagar, dr. Lembra que eu gosto do barato”, disse eu. Ele foi bacana comigo. Fiquei um tempo razoável flutuando numa névoa sensacional, falando besteiras e achando tudo lindo. Lembro de ter dito a dr. Pita: “arrasa, dr”. “Deixa comigo”, disse ele. Apaguei. 
Acordei, não sei quanto tempo depois, com o fofo do dr. Fábio falando bem pertinho de mim. “Acorda. Tá tudo bem?”. Eu sentia um frio insuportável e minha perna esquerda doía alucinadamente. Escutava vozes distantes, mas lembro bem de ter ouvido dr. Fábio dizer “sala de recuperação” e “dolantina”. Ah, adoro dolantina... Apaguei de novo. 
Quando acordei, não sei a hora, me levaram para o quarto. Dr. Pita disse que passaria à noite, depois do consultório, para me ver. Passei a tarde meio dormindo, efeito das bombas sedativas às quais fui submetida. Mó legal! À noite, dr. Pita passou e me prescreveu um rivotril, o que me garantiu uma sensacional noite de sono. 
No dia seguinte, perto do meio dia, tive alta e vim pra casa. Sem drenos dessa vez. 
Mas olhando para o meu braço esquerdo fico com saudade do dreno. O braço está tão inchado, mas tão inchado, que não consigo encostá-lo no corpo. E a dermolipectomia braquial se revela mais dolorosa do que a temida crural...
Dr. Pita me alertou sobre as pernas. Mas elas estão tranquilas. O braço é que está incomodando. Não é propriamente dor, entende? É desconforto. O inchaço provoca o desconforto. Além do líquido – seroma – que sai loucamente de todo o corte. E é um senhor corte. Se antes, com barriga e peito, eu já estava parecendo a noiva do Frankenstein... agora então... tenho talhos imensos nos braços e nas coxas. Os das coxas sobem até a virilha, na parte da frente. É... tudo na vida é mesmo uma escolha. Eu escolhi as cicatrizes, no lugar das pelancas. Agora é seguir em frente e me acostumar com elas. Mas eu sou forte e sabia o que estava fazendo quando escolhi a cirurgia. O resto... o tempo cura. O tempo cura tudo, sem dúvida alguma. 
dermolipectomia crural
dermolipectomia braquial


Se eu pudesse voltar no tempo? Eu voltaria num passado muito, muito distante, e escutaria minha mãe quando ela dizia que eu estava ficando muito gorda. Eu teria ido às aulas de ginástica que ela pagava pra mim e eu não fazia. Eu teria prestado mais atenção no que eu estava fazendo com o meu corpo. 
Hoje não há mais nada que eu possa fazer além de reparar, da melhor forma possível, os danos. É impressionante como eu não me dei conta de como estava gorda! Olhando retratos de três anos atrás fico me perguntando como me deixei ficar daquele jeito. 
Um amigo muito querido, que está na minha vida há uns 13 anos, me disse recentemente que agora ele me conheceu. Eu nasci de dentro daquele corpo imenso. Ele me disse, também, que as cicatrizes fazem parte do processo e todos têm as suas – umas maiores, outras menores, umas visíveis, outras não. Ele, que tinha me visto pela última vez quando eu estava grávida de oito meses, me mostrou que tudo pelo que passei, venho passando e ainda vou passar vale a pena. Por conta do resultado. Uma pessoa nova, que se renova a cada dia e que se descobre nova a cada novo dia. E isso é – sem dúvida – bom demais. 
Hoje vou ver dr. Pita. Ele voltou de Porto de Galinhas para me ver. Sinto que vem punção por aí. Mas tudo bem. Eu sei que daqui a três semanas, um mês, estarei ótima e nem me lembrarei do sofrimento. E, sem bem me conheço, já estarei planejando a cirurgia das costas...



2 comentários:

  1. Hoje eu te vi e fiquei muito impressionado. Nem foi com a cor violácea, digamos assim, do seu braço esquerdo. Me impressionou seu bom humor, sorriso e coragem. De sempre. Você continua sendo uma pessoa bonita. Como sempre.

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  2. obrigada, querido. bom humor é tudo, né? algumas características minhas - o humor é uma delas - eu acho só perderia se fosse lobotomizada. e tu me conhece, né? rir de tudo é o melhor remédio, e "tudo" inclui de si mesmo. bora marcar aquele sushi, ok? já tô de saco cheio de ficar em casa... bjão e obrigada por tudo.

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