quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Do lado de lá da fronteira

eu fui, eu fui, eu fui, eu fui... pro outro lado de lá...
Hoje fui ao meu cirurgião bariátrico, dr. Walter França, levar os exames aos quais preciso me submeter semestralmente por conta da redução de estômago. Coisas de rotina pra verificar taxas de vitaminas, hormônios, blá blá blá, além da sensacional endoscopia (adoooooooro) e a ultrassonografia de abdome. 
Na sala de espera do sempre lotado consultório de dr. Walter, depois de ler dois jornais, resolvi passar o tempo observando as pessoas que estavam, como eu, aguardando o atendimento. 90% eram gordas. Ora, normal. Na antessala de um cirurgião de redução de estômago estranho seria se a maioria das pessoas fossem magras. Magras, como eu sou agora. Me dei conta disso – que sou magra – pelos olhares dirigidos à minha pessoa no consultório. A interrogação era visível nos olhos de todos. 
Quando terminei de ler os jornais e passei a observar as pessoas, elas se sentiram à vontade para puxar conversa. Aí vem as inevitáveis perguntas: “você fez redução?”, “há quanto tempo?”, “perdesse quanto?”. E, a cada resposta que eu dava, aumentava o espanto das pessoas. Afinal, quem me vê vestidinha não tem a dimensão do tamanho que eu tinha, pois as avarias ficam bem escondidas sob as roupas. Menos os peitos, vai. Agora só uso decotão... =)
É impressionante pensar que há menos de dois anos eu estava do lado de lá da fronteira. Em janeiro de 2010 era eu a gorda que esperava o atendimento de dr. Walter, louca para marcar a cirurgia. E era gorda, viu? Enorme... Aff...
Como minha vida mudou num espaço tão curto de tempo. Um curto espaço de tempo, mas um caminho muito longo. Mas pensem comigo: Renato vai completar três anos e eu o tive por meio de uma cesariana. Depois disso fiz a redução e plástica. São 36 meses e três cirurgias. E, claro, a mudança maior: meu filho. Mas falarei dele no próximo postHoje quero falar sobre as mudanças que aconteceram na minha vida provocadas pelo emagrecimento. 

1º. Saúde – Antes de emagrecer 63 kg eu tinha problemas circulatórios (dormência nas extremidades), hipertensão arterial severa (controlada mal e porcamente com três medicamentos diferentes), esteatose hepática (gordura no fígado), apneia do sono (paradas respiratórias), diástase (afastamento da musculatura provocada pela dilatação do corpo), além de problemas nas articulações dos joelhos, inúmeros lipomas e hérnia epigástrica. Ufa! Acho que é só. 
zzzzZZZZzzzzzz
Hoje – Não tenho mais problemas circulatórios, minha hipertensão é considerada leve (controlada com apenas uma medicação), meu fígado não tem mais gordura, a diástase e as hérnias foram corrigidas na plástica de abdome e os lipomas murcharam. O principal: não tenho mais apneia. Quem sofre de apneia tem um sono que não é revigorante, pois é inúmeras vezes interrompido sem que nem percebamos. Hoje eu durmo melhor, e preciso de menos horas de sono para me recuperar. Outra coisa: eu não ronco mais! Êeeeeeee!!!

2º. Estética – Antes da redução de estômago eu pesava 135 kg e vestia manequim 56. Isso quer dizer que as minhas roupas – que abertas sobre a cama lembravam tendas de circo – eram compradas em lojas especializadas ou, com sorte, nas araras de vestuário de gestantes em lojas como C&A e Riachuelo. Fora as roupas, também tinha problemas com acessórios, como anéis, colares e pulseiras: nada cabia em mim. Feia eu nunca fui, mas eu era realmente muito, muito volumosa, e tudo em mim era muito arredondado – do rosto aos pés. 
menor, bem menor...
Hoje – Quase dois anos depois da redução posso dizer que neste quesito das mudanças foram inúmeras. A começar pela drástica redução de manequim: de 56 par 40. Aliás, 40 em baixo e 44 em cima. Explico: com o emagrecimento o meu corpo de nadadora, que eu desconhecia, surgiu. Resultado: ombros largos, quadril estreito, pouca cintura. E a transformação do meu guarda-roupa foi gigante. 
Hoje tenho vários vestidos – peça proibida para gordos, pois invariavelmente ficamos parecidos com capinhas de liquidificador –, além camisetas de alcinha, blusas coladas e acinturadas. Tenho, ainda, vários anéis, colares e – pasmem: pulseiras! Uhuuuuuuuuu!!! Mudei até os sapatos, pois hoje suporto bem saltos 15, por exemplo.

o que você vê quando se vê?
3º. Emocional/Psicológico – Curiosamente esse é o setor da minha vida mais tumultuado até agora. E, por conta disso, nem escreverei como está hoje, farei um parágrafo único. Até este dia, 63 kg a menos, eu ainda não me vejo magra. E a minha terapeuta disse que possivelmente carregarei minha autoimagem gigante até o final dos meus dias. Notei que fiquei mais... invisível depois da perda de peso. Antes eu chegava “chegando” e hoje eu sou apenas uma pessoa normal. Percebo, também, que eu era mais segura antes de emagrecer. Tipo antes eu não aguentaria coisas que hoje, além de aguentar, me fazem sofrer. Eu era mais dura, não por nada, apenas por self preservation mesmo. Outra coisa interessante é que as pessoas que tem intimidade comigo quando me vêem perguntam se eu tô pegando geral. Não, não estou. Acreditem ou não eu era muito mais pegadora quando era obesa. Exatamente pelos motivos que falei acima. Uma questão de defesa, sem dúvida, mas foi com essas defesas que forjei a pessoa que sou e isso – hoje sei – é muito difícil de desconstruir. É... é muito babado... Por falar em babado, as peles sobrando dificultaram ainda mais a aceitação da minha nova imagem. Estou corrigindo isso, mas sei que é um processo lento, pois ainda faltam duas cirurgias plásticas. Não posso acelerar o tempo, tampouco posso afirmar que vou ficar 100% bem emocionalmente depois de todas as correções. Afinal, vão-se as peles, ficam as cicatrizes... 

Mas mesmo depois de tudo isso que contei aqui não tenho nenhuma sombra de dúvida quando afirmo que a gastroplastia foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Pode até ser que minha terapeuta esteja certa e que eu nunca mude a minha autoimagem, mas acredito que a cada dia que vivo conquisto mais um pedacinho da minha vida nova. E se eu não aceitar o que vejo no espelho pelo menos vou me acostumar, o que já é muito bom. Afinal eu não era bem-resolvida com o reflexo que eu via quando era gorda, eu era apenas habituada e resolvida a ser feliz mesmo imensa. 
É isso. Minha experiência exitosa me faz abrir um sorrisão quando as pessoas conversam comigo sobre a cirurgia. Se eu recomendo? Sem dúvida alguma. E conto minha trajetória para quem quiser ouvir. Pois, como diz o título deste post, eu já estive do lado de lá da fronteira. 
E, pra ser sincera, eu recomendo mesmo é o seguinte: corra sempre atrás do que você quer. Quer emagrecer? Faça dieta, malhe, faça bariátrica. Quem comprar um apartamento? Trabalhe mais, gaste menos, junte grana. Busque a forma de conseguir o que quer. Eu tenho feito isso e é muito, muito gratificante. Um desejo no coração e determinação valem ouro. Palavra de Kiki. 

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