domingo, 9 de outubro de 2011

As hérnias de Renato

entendeu? nem eu...
Ontem foi a cirurgia do meu filho. Ele, que tem dois anos e nove meses, já enfrentou a faca duas vezes. Hérnia inguinal. Pouco antes de completar dois meses ele fez a primeira vez, do lado direito. Renato chorava muito, sabe? A pediatra achava que era essa tal hérnia, mas que eu precisaria ficar atenta para vê-la. Eis que um dia, dando banho nele, percebo que esqueci a fralda no quarto. Peço pra minha mãe ficar com ele no banheiro e vou buscar a fralda. Ele começa a berrar, histérico. Foi como consegui ver a hérnia, com ele chorando, sem fralda. Estava lá, a danada, parecendo uma bola de gude no lado direito do púbis do meu bebezinho. E agora, dois anos e meio depois, nova hérnia, do outro lado. 
Esse tipo de hérnia que o meu bebê teve é uma falha congênita na região inguinal. Trata-se do canal por onde passou o escroto para se alojar no testículo, que por um motivo que não se sabe, simplesmente não fechou. O tratamento é cirúrgico e o que pode acontecer, caso não seja operada, é que ela encarcera (estrangula). É sério, pois o estrangulamento pode fazer com que a hérnia rompa provocando uma infecção generalizada, pois o que vaza para o corpo é aquilo que passa pelo intestino, ou seja: cocô. 
Enfim... as de Renato já estão devidamente resolvidas. Mas é um estresse, viu? Renato está gripado há várias semanas e a gripe vinha adiando a cirurgia. Só que agora, que falta apenas uma semana para a minha, não havia mais tempo pra esperar. Combinei com o médico que no sábado pela manhã levaria Renato para o hospital, internaria ele e lá seria feita a avaliação se havia catarro nos pulmões, blá blá blá. 
Cheguei no Português às 7h30 para dar entrada no internamento. A cirurgia estava marcada para 10h. Mas tem que chegar cedo mesmo. Quem tem Saúde Excelsior sabe do que eu estou falando. Renato ficou em casa, de jejum desde as 20h da sexta, ou seja: esfomeado e indócil. Chegou a guia de liberação, liguei para casa e minha mãe trouxe o pequeno paciente, que já estava pra lá de impaciente. Renato olhava pra mim e falava “gagau” o tempo todo. Estava com fome, meu pequeno. Claro! Mais de 12 horas sem comer. E nada do médico. Renato cada vez mais impaciente, mais esfomeado e eu mais irritada. Liguei várias vezes para o médico que dizia apenas que “estava chegando”. 
Apenas às 11h15 fomos conduzidos ao bloco cirúrgico. Ainda esperamos pelo médico mais uns 15 minutos e Renato só fazia berrar, histérico. Finalmente fomos levados à sala de cirurgia. Lá havia um anestesista e quatro enfermeiras. Assisti ao procedimento de sedação, aos prantos, pois Renato me olhava, enquanto era segurado pelas quatro enfermeiras (sim, pelas quatro) com olhos de medo e súplica. Ele adormeceu. Nessa hora a mãe sai. Saindo da sala cruzei com o cirurgião, que me perguntou por que eu estava chorando. Olhei pra ele e não falei nada. Fiquei na sala de espera do bloco, aguardando. Cinco minutos depois entra o médico na sala de espera. Olhei pra ele e perguntei se tinha acontecido alguma coisa. Ele senta ao meu lado, coloca a mão na minha perna e começa a falar comigo com voz paternal... 
Em seu discurso ele dizia que eu deveria me acalmar, que as minhas ligações para ele (foram quatro no total) tinham deixado ele nervoso, que meu filho não estava com fome pois o corpo humano pode viver até sete dias sem sequer beber água (?????), que a cirurgia era pra o bem dele, blá blá blá. Eu olhava pra ele com a minha melhor cara de idiota e por dentro gritava “cacete! Meu filho está esperando, anestesiado, na porra da sala de cirurgia. Esquece essa ladainha e vá agora operá-lo”. Mas lógico que eu apenas pensei isso. Tá, com bem mais palavrões do que escrevi aqui. Mas não disse nada. Me limitei a olhá-lo, com cara de idiota, balançar a cabeça, e não dizer nada. Afinal, lembrem-se: ele ainda ia operar o meu Renato! Quando ele acabou de me dar as preciosas lições sobre paciência e finalmente resolveu ir operar o meu filho, fiquei lá na sala, sozinha, esperando o procedimento terminar, pedindo a Deus que guiasse as mãos do cirurgião e psicólogo nas horas vagas, que estava finalmente operando meu filho.
O procedimento demorou muito, mais de uma hora. Mas meu filho voltou para os meus braços, pálido, mas inteiro e acordado, são e salvo, graças a Deus. Voltamos pra casa, Renato manhoso e dengoso como nunca. Mas bem. E isso é o que importa. Ele ganhou mais um cicatriz no corpo, possivelmente a segunda de várias outras que ainda virão. Sem contar as cicatrizes emocionais, aquelas que adquirimos ao longo da vida. E dessas aí eu não vou ter nem como conseguir poupá-lo... mas é isso aí, bola pra frente. Criança tem uma imensa capacidade de recuperação e hoje ele já amanheceu muito, muito bem mesmo. Obrigada, Senhor!
Mas variando um pouco sobre o mesmo tema, eu falei pra vocês, né? Que saiu na Justiça a tutela antecipada e as  minhas plásticas de barriga e mama acontecem na próxima sexta, dia 14? Pois é... botei a ação e essa tal tutela garantiu, mesmo antes da primeira audiência, que o meu plano de saúde está judicialmente obrigado a pagar pelas minhas plásticas. (para saber mais sobre o assunto leia o post Dura Lex, Sed Lex)
O fato é que eu saí do hospital, depois da cirurgia de Renato,  pensando que não foi uma boa ideia ter ido a um bloco cirúrgico uma semana antes da primeira da leva de plásticas às quais me submeterei. 
Os médicos conversam e gargalham dentro da sala de cirurgia como eu faço no meu trabalho, conversando com Cofre ou Mariazinha. 
É difícil entender isso, né? Por mais que a gente saiba que é ambiente de trabalho do mesmo modo... mas, sei lá... estão com a vida de uma pessoa ali, nas mãos... A gente que é leigo a fica pensando que tem que estar num puta silêncio pra ter concentração e tals... Depois que tudo passou, em casa, fiquei imaginando o tipo de papo que os médicos vão ter enquanto retiram a minha pele. Será que vai ser algo do tipo “rapaz, com o que sobrou dessa barriga aqui dá pra fazer uns 15 pares de sapato”. E todos riem da piadinha maldosa... Ai, ai... esse meu fantástico mundo de Kiki...  Mas é como diz o meu gatinho: "foca no resultado". Tô tentando, gatinho... tô tentando...  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O que você tem a dizer sobre isso?