terça-feira, 12 de julho de 2011

O que não nos mata... nos fortalece.

a vida não é conto de fadas
Hoje eu fiquei muito irritada comigo mesma. Como parte da minha peregrinação pós-redução de estômago fui visitar o terceiro cirurgião plástico. Ele me recebeu cheio de sorrisos e perguntou o que poderia fazer por mim. Respondi: "tudo. quero dar uma recauchutada geral". Ele, me olhando surpreso: "por que?". "Excesso de pele decorrente da gastroplastia", expliquei. Na hora o sorriso desapareceu. "Desculpe. Eu só trabalho com pacientes normais", disse ele. Foi aí  que me senti como a personagem de Julia Roberts em Uma Linda Mulher. Tem um cena na qual ela é abordada pelo advogado de Richard Gere e ele pergunta pra ela se depois que tudo passar eles podem fazer um programa juntos. Ela, prostituta vestida de dondoca, fica desconcertada. Depois, cobrando explicações de Gere, ela diz que vestida com roupas de prostituta sabe sair de uma situação como aquela. Vestida como mocinha, não. Foi mais ou menos o que senti na hora. Antes, 60 kg mais gorda, eu teria uma resposta na ponta da língua. Hoje, pseudo-magra, fiquei muda, triste, arrasada. 
Eu, que já não ando lá muito bem, saí do consultório pensando que o tempo e as experiências pelas quais passamos ao longo da vida criam em nós uma couraça. Algo como uma blindagem, imagino. E essa blindagem é o que nos protege de cair nas mesmas ciladas que nos fizeram cria-la. É como um círculo vicioso de dor e sofrimento que nos deixa cada vez mais endurecidos, céticos e incrédulos com as coisas e com as pessoas. Anos e anos de porrada nos preparam para estar fortalecidos para as situações. Certo? Nem sempre. Pelo menos é pra ser assim. Mas nem sempre é. Vocês já se pegaram caindo, sistematicamente, nos mesmos erros? Já se permitiram viver alguma coisa mesmo sabendo que o IVDM (índice de vai dar merda) era altíssimo? 
Pois é. Isso acontece muito comigo, em várias situações. Situações simples, como uma leve alergia, por exemplo: sei que fico me coçando quando como camarão, mas como mesmo assim. Ou ao permitir que um cirurgião plástico imbecil e gordo me deixe down ao dizer que só opera pessoas normais (opa! ex-gordo é anormal???). Passei anos e anos me trabalhando pra não me machucar com comentários assim, mas agora que não sou mais gorda, me pego nocauteada por palavras infelizes e mesquinhas. Enfim, pensamos que estamos prontos para viver ou para ouvir qualquer coisa. Linda teoria... na prática... humpf!!! 
E tudo fica ainda mais difícil quando envolve relações humanas. Relações humanas são complexas normalmente e quando já há algum indício de que vai dar merda, é pior ainda. Exemplo: emprestar dinheiro pra alguém que já te deu problema para pagar uma vez. Ou contar com um amigo tal que em outra oportunidade já te deixou na mão. É nessa hora que devemos escolher se queremos ter essa pessoa na nossa vida ou não, pois defeitos todos têm, eles são inerentes ao ser humano, assim como as qualidades - eles são, na verdade, as características que tornam cada pessoa única. Mas veja que bom: nos é facultado é o direito de escolher se vamos conviver bem com aquelas características ou não. Nós podemos escolher de fato se queremos continuar ou não tendo tal pessoa nas nossas vidas e em que patamar vamos colocá-la. Mas mais uma vez repito: a teoria é linda. 
fênix
Eu realmente já levei muitas lapadas da vida. E me tornei uma pessoa extremamente dura por conta disso. As experiências amorosas desastrosas e as rejeições me fizeram evitar muita proximidade. Mas às vezes baixo a guarda e deixo que entrem intensa e profundamente na minha vida. E continuo quebrando a cara. E aprendendo. E sigo vivendo, caindo e levantando, sacudindo a poeira e colando os cacos. E, graças a Deus, tenho em mim o poder da fênix, pois sempre renasço, mais forte, das minhas próprias cinzas. Demora, mas renasço. E vai ser assim dessa vez também. Vou me recompor da queda, do comentário, de tudo. E vou sair de tudo isso ainda melhor e mais fortalecida. Se Deus quiser. E Ele quer, pois eu sou uma pessoa abençoada. 
Chovia muito quando eu saí do consultório do médico. Minhas lágrimas se confundiam com os pingos da chuva que castigavam o meu rosto. Eu queria gritar, gritar o que não gritei pra o idiota do médico. Peguei o carro e segui para a natação e lá descarreguei toda a minha raiva, minha frustração. Tudo tem realmente um lado bom: consegui nadar 1000 metros na piscina gelada. Cada braçada era um alívio, um exorcismo, uma purificação. Estou melhor agora. 100% ainda não, mas vou ficar. Parodiando Chico, "apesar de você amanhã há de ser outro dia". E que venha outro dia, outros médicos, outras experiências. Estou pronta, pois "tudo posso Naquele que me fortalece". Amém. 

Um comentário:

  1. kiki,

    lindo o texto, linda a tua trajetória, e abençoadas as lágrimas que se uniram à chuva. o que não mata ensina a viver - a gente precisa mesmo aprender a se proteger na vida, mas não dá pra deixar de viver por isso. a beleza é achar esse equilíbrio. mas não esquece do mantra "gentileza gera gentileza" - por mais que joguem pedra, o amor é sempre a resposta apropriada.

    fala pro cirurgião plástico que "normal" é ciclo de máquina de lavar roupa. e só.

    e vamo combinar que de um médico desse, tudo que a gente precisa é distância - muita distância.

    beijos e força pra você,

    duda

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